Sombra

Sombra

Conto — ficção original do Arquivo Cósmico.

No décimo primeiro dia da travessia da Estepe de Sarn, quando as escarpas de Khevar já deveriam morder metade do horizonte, encontrei a única coisa que nenhum mapa registrava.

Se eu tivesse entendido o que se erguia naquela planície, teria continuado a caminhar até o sol me consumir.

Mas eu ainda acreditava que o sol fosse o inimigo.

Em criança, eu dormia com uma lamparina acesa. Temia o vão sob a escada, o fundo dos armários, a boca escura do porão. Passei a vida inteira preferindo a luz. Levei quarenta anos e uma estepe amaldiçoada para descobrir que a escuridão nunca fora a ameaça — apenas o abrigo que eu não sabia estar perdendo.

Os mercadores de Taar não cruzam Sarn no verão, e não sabem dizer por quê. Falam do calor, dos poços incertos, das trilhas que se apagam entre as pedras. Nenhum deles fala da luz, porque nenhum deles voltou para contar.

Saí do posto com provisões para dezoito dias. Ao terceiro, uma ventania enterrou os marcos. Ao quinto, a bússola começou a estremecer. Ao sétimo, o vento morreu, e a estepe emudeceu de um jeito que eu não sabia possível: sem insetos, sem aves, sem o roçar de bichos sob as pedras. O cantil batia na fivela e o som sumia antes de voltar, como se o ar fosse largo demais para devolvê-lo.

Foi então que reparei na terra.

Ela estava lavada. Não seca — lavada, como um osso ao sol por décadas, como uma parede da qual se esfregou toda a fuligem. As pedras claras feriam os olhos; as escuras brilhavam como metal quente; as rachaduras exibiam cada grão no fundo. Não havia penumbra em lugar nenhum. Nem sob as pedras, nem dentro das plantas ressequidas. Como se alguém houvesse passado por ali e raspado a sombra do mundo, deixando só o brilho.

E, acima de tudo, o sol.

Desde o oitavo dia ele estava quase a pino, grande, branco, sem halo — um disco cravado num céu vazio. Eu andava horas e o encontrava no mesmo ponto. Dormia sob a mesma claridade e despertava sob ela. As pálpebras não me abrigavam: fechadas, deixavam passar um vermelho pulsante, e às vezes eu via através delas o contorno dos próprios dedos.

No nono dia, achei uma pedra da altura do peito, com uma saliência que deveria dar abrigo. Contornei-a uma vez, duas. Todas as faces iluminadas. Estendi a mão diante dela: meu braço não escureceu a superfície. Aproximei a palma até quase tocá-la. Nada.

A pedra não projetava sombra.

Meu corpo também não.

Tirei o casaco da mochila e o estendi sobre a cabeça. Continuei vendo minhas mãos. O tecido grosso parecia embebido de luz; o interior das mangas brilhava. Abri a mochila e encontrei o cantil, a comida e a bússola banhados no mesmo branco. Fechei-a depressa, como quem fecha uma ferida.

Foi ali que a palavra começou a me ocupar. Sombra. Não como obsessão, no início, mas como a saudade de algo que eu sempre tivera de graça. Lembrei das marquises de Taar. Das cortinas pesadas do quarto de minha mãe. Do vão sob a escada que eu temera a vida inteira — e que agora, na memória, me parecia o lugar mais doce do mundo.

No décimo dia, ajoelhei-me e cavei. Abri um buraco fundo o bastante para enterrar o braço, certo de que as camadas de baixo guardariam algum escuro.

O fundo do buraco brilhava. A luz brotava de dentro da terra.

Fitei aquilo por muito tempo. Depois gritei, e o grito atravessou a estepe e não voltou.

Foi no décimo primeiro dia que vi a mancha.

A princípio, um traço cinzento tremulando muito além das pedras. Lavei o rosto, pisquei, apertei as pálpebras até estourarem cores. A mancha permaneceu. Mudei o rumo.

Por horas ela não teve forma: ora torre, ora árvore descomunal de tronco grosso e copa baixa. Meu corpo entendeu antes da razão — o coração disparou, a garganta apertou, e eu andei mais depressa.

O que eu tomara por tronco era um caule pálido, inchado na base, percorrido por fibras grossas, erguido a quase trinta metros. No alto, sustentava uma massa larga e flácida: um chapéu de carne enferma, manchado de amarelo e violáceo, com bordas pendendo em lobos pesados, e sob eles milhares de lamelas finas. O caule retorcia-se como um feixe de corpos comprimidos. As fibras eram tendões expostos. E o chapéu inclinava-se de leve para o lado de onde eu vinha, embora o ar estivesse morto.

Sob ele, o chão era negro.

A mancha se espalhava por dezenas de metros num círculo quase perfeito, com prolongamentos estreitos avançando pela estepe como raízes. Não obedecia ao sol. E então entendi a terra lavada, o mundo sem penumbra, a sombra raspada de tudo: não havia sido apagada. Havia sido recolhida. Léguas e léguas de sombra colhidas para um só lugar, empilhadas naquele círculo até adquirirem profundidade — um poço deitado horizontalmente sobre o solo, fundo o bastante para se afogar em pé.

Recuei alguns passos.

Uma brisa fria tocou meu rosto — o primeiro ar frio em onze dias, com cheiro úmido de terra, folha podre e madeira guardada. Fechei os olhos e respirei fundo. Quando os abri, já estava andando de novo.

O primeiro objeto apareceu a um quilômetro do fungo: um cantil amassado, ainda com água. Depois uma fivela, uma tira de couro, a armação quebrada de uns óculos. Depois as manchas no chão — compridas, estreitas, com duas extensões paralelas que lembravam pernas. Uma parecia um homem ajoelhado. Outra tinha cinco dedos finos. A luz caía sobre elas sem as dissolver.

O frescor crescia a cada passo, e minha pele queimada implorava por ele.

Foi quando distingui as figuras no caule. Pareciam pessoas encostadas na superfície fibrosa — sentadas, de pé, os braços pendendo. Chamei. Ninguém respondeu. De perto, perderam volume: silhuetas escuras coladas ao caule, corpos reduzidos a contorno, sobrepostos como manchas antigas de umidade. Alguns rostos ainda se reconheciam. Olhos fechados. Bocas entreabertas. As expressões lembravam alívio.

As lamelas estremeceram acima deles, numa ondulação lenta, e um pó fino desprendeu-se e sumiu antes de tocar o chão.

Recuar pareceu, por um instante, a única saída.

Então algo prendeu meu pé.

Olhei para baixo. Uma forma escura nascia dos meus calcanhares e se estendia até o fungo. Era o contorno do meu corpo — a primeira sombra que eu projetava em onze dias. O sol continuava a pino, sem justificá-la. Ela não era minha: era um anzol, e eu, a linha.

Dei um passo atrás. A sombra ficou presa ao chão diante de mim, esticando-se como uma membrana prestes a romper, e senti o puxão nos tornozelos. Tentei ir para a esquerda; ela acompanhou com atraso, arrastando-se pela terra, encurtando quando eu avançava.

E o frescor já me subia pelas pernas. A ardência sumiu. A dor atrás dos olhos cedeu. Um torpor delicioso me amoleceu os músculos, e a borda escura estava a poucos metros, cheia de mochilas, cintos, sapatos largados às pressas.

Quando a atravessei, a luz cessou.

Caí de joelhos. Fechei os olhos e, pela primeira vez em dias, havia escuridão atrás das pálpebras — a mesma escuridão do vão sob a escada, a que eu temera a vida inteira, e que agora me acolhia como nunca. O ar era frio. O chão, macio e úmido. Um ruído fundo e ritmado atravessava as lamelas.

Respirei. E o som respirou comigo.

Arrastei-me até o caule e encostei as costas. A superfície cedeu, morna e elástica. Só alguns minutos, pensei.

A imobilidade começou pelos pés. Atribuí à exaustão, e deixei o torpor subir até os joelhos. O murmúrio ao redor ficou nítido — e eram respirações. Muitas.

Abri os olhos. As figuras cobriam o caule inteiro, algumas quase encostando nos meus ombros: à direita o perfil de uma mulher; à esquerda, um homem de boca aberta num grito sem som; acima, uma forma pequena agarrada à silhueta de um adulto.

Quis me levantar. O corpo não respondeu. Minhas botas ainda estavam ali, mas seus contornos se confundiam com o chão, e o escuro subia pelo couro. Ordenei aos dedos que se mexessem: a mão apoiada no solo estava achatada e sem brilho, as articulações já sem relevo. Consegui arrastar o braço alguns centímetros — e parte dele ficou no caule, sem dor, com a resistência mansa de uma folha molhada que se tenta despregar da parede.

Forcei o pescoço e olhei para trás. Havia uma silhueta nova na superfície pálida: os ombros, a curva da cabeça, o braço no chão. O rosto ainda incompleto.

Era o meu.

No horizonte em brasa, uma forma pequena se movia. Um homem, andando devagar, a mão sobre os olhos. Parou ao avistar o fungo, e mesmo àquela distância percebi a mudança no seu corpo: ele havia encontrado o que procurava. Começou a se aproximar.

Lutei para erguer o braço, bater no caule, fazer qualquer som. Minha boca ficou aberta na superfície, muda. A silhueta às minhas costas moveu-se apenas o bastante para que seus dedos se alongassem pela estepe, na direção dele.

E então entendi por que ele não conseguiria parar.

A sombra que o puxava já era, em parte, a minha.

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