Alistair

Um conto — ficção original do Arquivo Cósmico.
Era uma tarde úmida nos arredores de Londres, e o jabuti atravessava o passeio público a três metros por hora.
Ninguém o observava. Isso lhe convinha.
O nome não lhe fora dado. Aos quatro anos, de dentro do terrário, ouviu um locutor de rádio pronunciar o nome de um estrategista militar e decidiu que serviria. Tinha peso. Ninguém na casa notou que, dali em diante, o animal atendia por Alistair — porque ninguém na casa jamais o chamou por nada.
Nasceu no porão de um antiquário, entre caixotes, e foi vendido antes de completar um ano. A primeira dona colecionava relíquias vitorianas e o instalou numa prateleira da sala, entre um barômetro de latão e uma coruja empalhada. Ficou ali três anos. Aprendeu, naquela prateleira, uma coisa que jamais desaprenderia: não estava sendo criado. Estava sendo exibido. E os objetos ao seu redor tinham, todos, uma característica em comum.
Foi trocado por um faisão de porcelana.
O casal seguinte gostava de gastronomia exótica. Numa terça-feira, o marido o tirou da caixa, virou-o de barriga para cima sobre a bancada da cozinha e mediu seu casco com uma fita métrica, anotando o resultado num caderno. Depois consultou o caderno em voz alta, discutindo rendimento com a esposa. Alistair permaneceu imóvel — não por medo, mas porque estava contando. Contou dezoito dias até ser passado adiante.
A última família não o mediu nem o exibiu. Simplesmente o esqueceu. Havia um terrário na lavanderia, e nele caíam restos. Aos domingos, o filho adolescente às vezes o punha no chão da sala e ria da lentidão.
O chão da sala, no entanto, tem vantagens que não ocorrem a quem anda ereto.
A cinco centímetros do assoalho, Alistair sentia o que ninguém sentia: um cheiro adocicado e constante junto ao rodapé da cozinha, mais forte à noite, vindo da base do fogão. Ninguém na casa jamais se abaixou o bastante para percebê-lo. Ele o percebia todos os dias, há dois anos.
Também sabia o resto. Sabia que a mulher passava as tardes no sofá com o telefone e não erguia os olhos. Sabia que o marido dormia às onze. Sabia que o rapaz acendia velas aromáticas sobre a mesa de jantar — mesa de madeira, toalha de linho comprida, pontas pendendo a um palmo do tampo — e subia para o quarto sem apagá-las.
Na noite de 14 de novembro, o rapaz acendeu uma vela e subiu.
Alistair deixou o terrário às 23h40. Cruzou a lavanderia em quarenta minutos. À 1h12 alcançou o pé da mesa e começou a subida pela cadeira encostada — três tentativas, a segunda das quais o deixou de costas por dezenove minutos, pernas ao ar, sem nenhuma pressa perceptível. Chegou ao tampo às 2h47.
A vela estava a vinte e dois centímetros da barra da toalha.
Ele empurrou com a borda frontal do casco. A vela deslizava cerca de meio centímetro por investida, e cada investida custava um minuto. Ele não acelerou. Não havia por que acelerar: um jabuti é a única criatura para quem o tempo não é um recurso escasso, e ele sabia disso desde a prateleira. Às 4h30 a vela tocou o linho.
Depois foi só assistir.
A chama subiu pela toalha, alcançou as cortinas, entrou na cozinha. Às 4h58, encontrou o rodapé.
O estrondo acordou a rua inteira.
A família correu, gritou, chamou os bombeiros. Alistair não se moveu — permaneceu exatamente onde estava, no meio da fumaça, imóvel como um enfeite. Um jabuti que não se move não é suspeito de nada.
Foi retirado no colo de um bombeiro, que o ergueu para os vizinhos verem. Houve algum aplauso. A mulher chorou e disse que o pobre bichinho tinha escapado por um triz.
Depositaram-no numa caixa de papelão no jardim, para que ficasse seguro enquanto apagavam o que restava.
Pelos furos de ar, Alistair estudou a casa do vizinho.
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