Cidade Maravilhosa

Conto — ficção original do Arquivo Cósmico.
A tarde era abafada e o ar carregava fumaça e gritos. A favela subia as colinas até onde a vista alcançava, casebres de madeira e chapa metálica erguidos uns sobre os outros como lesões na pele da terra. Mais abaixo, uma boca escura e desdentada vertia fumaça grossa. Acima dela, com esforço, ainda dava para ler as letras que restavam do letreiro: COPACABANA. Ninguém vivo lembrava de ter havido um metrô ali. Ninguém vivo lembrava o que era um metrô. Mas o lugar ainda se chamava assim.
Desceu a viela com o estômago em nó. Carregava um pedaço de pau enrolado em trapos sujos, que de longe parecia outra coisa. Na mochila, embaixo de um casaco dobrado, o resto da ração da semana.
Na esquina seguinte, uma criança sozinha remexia uma pilha de lixo e comia o que achava. Magra de se contar as costelas por baixo da pele. Ela o viu. Olhou a mochila.
Foi quando ele ouviu as botas.
Zeladores. Fardas verdes, rotas; coturnos esgarçados, ainda duros o bastante. Levavam o que encontrassem — comida, corpos. Se achassem a ração, o matariam ali mesmo, porque revistar dava mais trabalho que matar.
A criança abriu a boca. Ia pedir. Ia pedir alto.
Os passos vinham ecoando pela viela, pisando poças de esgoto, cada vez mais próximos.
Ele levantou o porrete. Os braços tremiam. Não é uma criança, pensou. É um som prestes a acontecer.
Golpeou. Uma, duas, três vezes, até não haver som nenhum — só o gotejar do sangue e uma mão espalmada no cimento, pequena demais.
As botas passaram ao largo. Nenhum Zelador apareceu.
Limpou o porrete na perna da calça. Esperou os ruídos da viela voltarem ao fluxo de sempre — a agonia constante, ao redor, que ali fazia as vezes de silêncio. Depois curvou-se sobre o corpo, sem saber o que procurava. Não encontrou nada. Só um cansaço fundo e uma reverberação surda no próprio crânio, como se o golpeado fosse ele.
Ao pôr do sol, empoleirado num telhado instável, comeu um terço da ração, devagar, olhando a cidade. O horizonte tingia-se de vermelho por trás da fumaça. Num fio de cobre exposto, uma luz antiga piscou duas vezes e apagou.
Esse futuro onde a cidade apodrece por cima do próprio passado tem parentes ilustres na estante — a distopia BRASILEIRA que anteviu tudo isso, e a máquina de moer gente que inventou o gênero 👇