O Olho de Namar-Keth

Conto — ficção original do Arquivo Cósmico.
Encontrei o medalhão entre os pertences do professor Ezequiel Varga, três dias após seu desaparecimento.
Estava guardado numa caixa de madeira escura, envolto em tecido púrpura e acompanhado por um único bilhete:
“Jamais o coloque diante de uma porta fechada.”
Conheci Varga durante meus estudos de arqueoastronomia. Era um homem reservado, dado a silêncios longos e a teorias que os demais professores classificavam, com indulgência, como excentricidades senis. Durante anos, investigara cultos pré-humanos mencionados em inscrições fragmentárias da Mesopotâmia, do planalto iraniano e de certas ruínas ciclópicas encontradas sob as areias da Mauritânia.
Em todas elas surgia o mesmo símbolo: um olho encerrado por círculos concêntricos, atravessado por uma linha vertical.
Os antigos o chamavam de Namar-Keth.
Segundo Varga, o nome poderia ser traduzido como “aquele que observa através do intervalo”, embora os poucos textos sobreviventes fossem contraditórios. Alguns descreviam Namar-Keth como um deus. Outros, como uma máquina. Havia ainda uma terceira interpretação, muito mais perturbadora: Namar-Keth seria simplesmente um órgão, uma pequena parte de algo incomensurável, suspenso além dos limites da matéria.
O medalhão encontrado na caixa reproduzia aquele símbolo com precisão.
Era feito de um metal avermelhado que parecia bronze, embora permanecesse frio mesmo quando aquecido. Em seu centro havia uma pedra translúcida, semelhante a ametista, talhada na forma de uma íris. Ao redor dela, minúsculos anéis móveis giravam sem qualquer mecanismo aparente.
Levei-o para casa naquela noite.
Durante horas, examinei o objeto sob uma lâmpada. Descobri inscrições microscópicas gravadas nas bordas, compostas por sinais que lembravam ao mesmo tempo letras, órbitas planetárias e diagramas anatômicos. Copiei alguns deles em meu caderno e, por curiosidade, tentei reproduzir sua disposição.
Quando terminei, percebi que os símbolos formavam um mapa celeste.
Ou quase isso.
As estrelas representadas não correspondiam ao céu terrestre. Algumas constelações pareciam possuir ângulos impossíveis, e havia regiões nas quais os astros estavam dispostos em espirais perfeitas, como se obedecessem à geometria de uma inteligência matemática.
No centro do mapa encontrava-se um círculo vazio.
À meia-noite, os anéis do medalhão começaram a mover-se.
Não ouvi engrenagens. Houve apenas um som baixo e contínuo, semelhante ao murmúrio de muitas vozes pronunciando a mesma sílaba em uníssono. A pedra central emitiu um brilho tênue, projetando sobre a parede uma linha de luz dourada.
A linha tocou a porta do escritório.
Recordei então o bilhete de Varga.
“Jamais o coloque diante de uma porta fechada.”
Levantei-me para retirar o medalhão, mas os anéis já giravam com velocidade crescente. A luz ampliou-se, desenhando sobre a madeira uma sucessão de círculos luminosos. A tinta da porta pareceu dissolver-se. Depois a madeira, as dobradiças e a parede ao redor perderam sua consistência.
No lugar da porta surgiu uma abertura.
Além dela não estava o corredor de minha casa.
Vi uma vastidão sem horizonte, iluminada por sóis violetas. Estruturas circulares flutuavam no vazio, tão grandes que mundos inteiros poderiam atravessá-las. Entre aquelas formas moviam-se sombras cujo tamanho não pude calcular. Pareciam navegar pelo espaço como criaturas marinhas em um oceano negro.
Então compreendi que os círculos não eram portais.
Eram pupilas.
Aquela paisagem inteira pertencia a um olho.
O medalhão vibrou em minha mão.
Algo do outro lado percebeu minha presença.
As estrelas violetas apagaram-se uma a uma. As estruturas cessaram seu movimento. A vastidão concentrou-se sobre mim com a atenção silenciosa de uma inteligência que jamais conhecera pressa, pois mediria sua existência em eras geológicas.
Uma voz nasceu dentro de minha cabeça.
Não era som, mas significado.
ABERTO.
Caí, soltando o medalhão. A abertura permaneceu diante de mim, pulsando como uma membrana. Do centro daquela escuridão surgiu uma linha vertical de luz, idêntica ao símbolo gravado no objeto.
A luz atravessou o aposento.
Por um instante, vi minha casa inteira como se suas paredes fossem transparentes. Vi as fundações enterradas no solo, os canos, os cabos elétricos, os túneis antigos sob a cidade. Mais abaixo, muito além das camadas alcançadas por qualquer escavação humana, encontrei formas circulares adormecidas na rocha.
Milhares delas.
Olhos fechados.
A revelação foi tão súbita que perdi os sentidos.
Despertei ao amanhecer. A porta estava em seu lugar. O medalhão permanecia no chão, imóvel e opaco.
Durante os dias seguintes, tentei convencer-me de que tudo fora uma alucinação causada pelo cansaço. Guardei o objeto na caixa e selei-a com cera. Depois a tranquei dentro de um armário.
Na noite seguinte, ouvi o murmúrio.
Vinha de dentro das paredes.
Na terceira noite, os círculos começaram a aparecer. Primeiro nos espelhos, depois nas janelas, nas telas apagadas e nas superfícies metálicas. Sempre o mesmo desenho: anéis concêntricos envolvendo um olho imóvel.
Na quinta noite, recebi uma carta.
Não havia remetente. Dentro do envelope encontrei uma fotografia do professor Varga, sentado diante de uma enorme estrutura circular. Atrás dele erguia-se uma porta de pedra coberta por inscrições.
No verso, alguém escrevera:
“Ele também acreditou que havia fechado.”
Desde então, já não durmo.
Hoje percebi que o símbolo apareceu na porta de meu quarto. Não foi desenhado nem gravado. Ele simplesmente está ali, como se sempre tivesse feito parte da madeira.
Os anéis começaram a girar há poucos minutos.
A linha dourada já toca o teto.
Escrevo estas palavras porque finalmente compreendi o verdadeiro significado do nome Namar-Keth.
Não é “aquele que observa através do intervalo”.
A tradução correta é:
“O intervalo através do qual Ele observa.”
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